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  • Carla Carneiro

Se tudo agora é "mimimi"​, onde entra o dia da mulher na publicidade?

Atualizado: 9 de Jul de 2019

A publicidade tem um papel social muito importante, ao tentar aproximar a mensagem do público-alvo, acaba agregando alguns comportamentos gerais da sociedade, ditando algumas regras ou normalizando atitudes através de sua comunicação.


Por atingir uma grande massa de pessoas com perfis diferentes, acaba criando alguns estereótipos e acompanhando os costumes sociais. As mulheres, por muito tempo, foram representadas como era desejável: prendadas, obedientes, submissas, cuidadoras de casa, dos filhos e do marido. Junto a isso, algumas atitudes de violência também foram normalizadas pela comunicação para a sociedade.


No momento em que a mulher começa a adquirir a decisão das compras do lar, as propagandas se voltaram ao estereótipo normalizando atitudes enraizadas na cultura popular. Assim como retratado na tão conhecida propaganda da Chase & Sanborn Coffee de 1952, que mesmo voltada para as mulheres, mostra a violência com uma naturalidade assustadora trazendo a culpa da violência para a mulher que não é dita “eficiente”. Na propaganda, é dado ao marido a liberdade de bater em na esposa que não lhe servir um café fresco.




A reformulação dessa comunicação vem sendo feita de tempos em tempos em conjunto com os costumes vigentes da época. Com algumas mudanças no comportamento feminino, depois de algumas conquistas de direitos, da inserção da mulher no mercado de trabalho e a descoberta do poder de compra, a publicidade também começou a mudar o jeito de representar essas mulheres. Representadas por serem mulheres poderosas, bonitas, que podem usa o que quiser, desde que continuem de acordo com seus devidos papéis de gênero e subordinação.


Vimos então, na propaganda de cigarro da Bulldog de 1970 a representação da mulher como um acessório, um complemento na vida social do homem que deveria ser conquistado. Já no anúncio da Budweiser dos anos 90, temos a mulher como objeto, fundindo com o rótulo da cerveja, seu corpo está representado como algo desejável e a disposição.


Hoje em dia na sociedade, vemos mulheres tentando se desvencilhar da figura masculina, tentando se provar como mulheres independentes, libertas de estereótipos, antes de serem mãe, esposas e donas de casa. O papel da publicidade continua sendo mostrar as mulheres em suas representações e lançar novos comportamentos, por isso vemos tantas marcas tentando se reposicionar de acordo com alguns conceitos como foi feito na “Campanha Reposter” da cerveja Skol.


Qual é o problema disso tudo?

O problema é que ainda vemos alguns comunicadores que não entenderam seu papel social e continuam a fazer propaganda do jeito antigo, normatizando a violência e utilizando do corpo feminino para chamar atenção. Acontece que hipersexualização da mulher vem em conjunto da desumanização, da objetificação de seu corpo - valendo menos que o produto ofertado - o que acaba afirmando a cultura do assédio e aceitando essa conduta como fatos da vida.


"Se ela vale menos, fica mais fácil fazer o que quiser"

Como comunicadores, como podemos intervir?

Como comunicadores, não basta apenas torcer o nariz para o politicamente correto, precisamos exercer a empatia e nos colocar no lugar do outro antes de dizer que é tudo "mimimi". Entramos em um modo ainda mais desafiador e precisamos ir além da representação. Precisamos lançar tendências, ir ao encontro dos relacionamentos humanos, dar voz a quem sofre por tanto tempo de normatizações.

Entender nosso papel social é o principal passo para enfim convencer nossos clientes a entrarem no jogo e serem grandes comunicadores. Mas, com muito cuidado! Vivemos no mundo das transparências, se a empresa não possui cultura de respeito e apoio às mulheres, não podemos forçar em sua comunicação.


E o dia da mulher?

O dia da mulher carrega muitos significados de lutas e conquistas pela equidade de gênero. É nele que temos a oportunidade de reparar tantos anos de esteriótipos e normatizações. É onde precisamos desromantizar a violência, quebrar tabus e mostrar as mulheres que não existe rivalidade entre elas.

É um dia que não dá pauta para sacadinhas incríveis, é necessário lembrar da mulher como um ser pensante, falar sobre assédio, violência doméstica, maternidade, empoderamento feminino e da libertação dos padrões patriarcais. Um dia cheio de significados e pautas não deve ser lembrado apenas com um "feliz dia da mulher" anexo a um presente.



Dica de leitura:

Representação da mulher da publicidade da revista veja: http://www.ppgcom.uerj.br/teses/2008/pdf/02/Dissert_Liliany_Bdtd_Pt2.pdf


História e Publicidade: a mulher na propaganda durante a ditadura militar no Brasil: http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-regionais/sudeste/3o-encontro-2014/gt-2-historia-da-publicidade-e-da-comunicacao-institucional/historia-e-publicidade-a-mulher-na-propaganda-durante-a-ditadura-militar-no-brasil/view

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